Folksonomia: da salada de frutas à estruturação da informação

07/12/2008 at 17:26 Deixe um comentário

 

A web 2.0 chega e altera substancialmente a forma como são tratadas as informações orgânicas nos ambientes digitais. Antes tínhamos uma instituição que gerava informações como resultado de suas atividades, agora temos usuários que geram informações orgânicas através de sua participação. Analiticamente, estamos falando de informações orgânicas que geram um perfil (ou vários) das pessoas que ali participam de um mesmo ambiente.

 

A folksonomia, por exemplo, pode ter várias definições. A maioria delas refere-se a atividade de etiquetar, no entanto, outros destacam a questão “social/coletiva”. Sejamos diretos: a folksonomia é nada mais do que metadados atribuídos por usuários para determinados objetos digitais. Ou metadados atribuídos por uma inteligência coletiva; é aqui que reside o seu diferencial e o maior desafio dos profissionais da informação: incorporar essa novidade e saber como tratá-la.

A folksonomia facilita a construção de um mapa dos desejos dos usuários e de seu universo semântico. Ao analisar uma nuvem de tags, por exemplo, teremos uma lista das palavras mais buscadas pelos usuários. Isto não acrescenta qualidade ao conteúdo, mas representa desejos e informações buscadas e metadados aplicados por uma média de usuários.

Como metadado, no entanto, é preciso tratá-lo e contextualizá-lo num processo de descrição de um recurso digital. Sem isso, o processo de tagueamento pode ser um desastre. Por outro lado, se bem administrado ele pode dar um gostinho de web semântica, possibilitando inferências variadas com respostas mais efetivas. Logo, a folksonomia pode ser vista como um novo paradigma de classificação, que respeita diferenças culturais, semânticas e pessoais de quem utilizou e classificou determinada informação. Ela possibilita que os usuários da informação atribuam os termos para a indexação colaborativa dos conteúdos como eles os vêem.

O impacto da folksonomia nos metadados é que cria esse paradigma e origina uma abordagem de organização dos recursos da web, ou como dizem uma etnoclassificação, isto é, a classificação popular. Mas esse é só um campo de metadado. O Dublin Core, um padrão de metadados proposto internacionalmente e que é base do projeto de implementação da web semântica possui 15 campos mínimos.

Prefiro conceituar a folksonomia como uma taxonomia dinâmica, social e temporal ao mesmo tempo. Ela representa através dos termos propostos perfis diferentes que surgem do cruzamento analítico desses termos. Se estiver errado alguém me corrija, mas acredito piamente que a folksonomia é a vivência do usuário representado na classificação, criando um campo de metadado a ser aplicado na taxonomia. E isso mostra que a experiência do usuário ainda é importante para o planejamento, implantação e manutenção de ambientes digitais e para as informações que ali são dispostas.

Uma das vantagens que podemos destacar no uso de folksonomias, a mais importante talvez, é o cunho colaborativo/social dessa classificação.

Assim, no processo técnico descritivo (de indexação), com certeza o peso dessa tag será mais um elemento, que deve ser combinado com um vocabulário controlado.
Para a web 2.0 é uma maravilha: pode-se formar com facilidade comunidades em torno de assuntos de interesse na medida em que, ao utilizar funcionalidades de folksonomia, o participante do ambiente digital tem acesso aos outros participantes que possuem os mesmos interesses identificados através das tags.

Sabe-se que a leitura tanto textual quanto de imagens é diferente de pessoa para pessoa, isso depende de vários fatores, como formação intelectual e cultural. No caso da folksonomia, estas diferenças são respeitadas já que não há regras para expressão das tags ao etiquetar determinado recurso. Logo, um mesmo termo pode ter significados diversos para os vários usuários que atribuíram as etiquetas. Um termo comum como “design” é atribuído para bilhões de recursos discrepantes (pesquise no google para ver), tornando impossível, assim, uma consulta produtiva sem refinamento adicional.

Logo, isso é exatamente o contrário de vocabulário controlado, é um vocabulário aberto, social, participativo. Mas volto a destacar, não pode ser o principal. Não é o metadado-chave.
A folksonomia é particular, porém colaborativamente dá uma idéia do perfil médio dos usuários da informação. Mas por não ter uma normatização pode causar incongruência no processo de busca e recuperação da informação. É pessoal e pode ser partilhado, mas não é semanticamente representativo se não for analisado em conjunto com outros termos e se isso não ocorrer não é tecnicamente plausível.   Por isso, não pode ser único. Se o seu portal busca a web 2.0 e você utiliza somente o tagueamento social (folksonomia) poderão ocorrer problemas comuns em processos de classificação como polissemia, sinonímia e variação de nível básico. Logo logo você terá uma salada de frutas para administrar.

A principal vantagem apontada pela literatura é o cunho colaborativo das folksonomias, e a desvantagem está justamente na falta de controle de vocabulários que é resultado de outra característica destes sistemas – a liberdade de indexação dos conteúdos conforme as necessidades e entendimento do próprio usuário. Neste contexto, o grande desafio é desenvolver aplicações que mantenham o cunho colaborativo ou social da folksonomia, mas que consigam atingir maior qualidade na indexação.

Dessa forma, acredito que o sistema de classificação dos portais deve cruzar taxonomia com a folksonomia, o que acarreta a organização pessoal da informação.

E não é o caso de democratismo, tão avaliado quando falamos de um portal corporativo. A sugestão é de a folksonomia seja utilizada como insumo para a construção da taxonomia.
Assim, numa estrutura de governança e classificação da informação é necessária uma instância mediadora, transparente para o usuário (governança/responsáveis pelas informações digitais/conteudistas) que possa servir-se das qualidades emergentes da folksonomia e atuar como revisora/editora deste caldo emergente. Sempre olhando diretrizes estratégicas que também são dinâmicas, fazendo com que este sistema emergente agregue valor para o ambiente digital da empresa.

Abra espaço para a participação dos usuários, use a web 2.0 para aumentar a colaboração no portal que você administra. No entanto, não caia na armadilha de pensar que isso vai solucionar problemas de indexação, descrição, recuperação e organização das informações de seu ambiente digital. O risco é que tudo torne-se uma bela salada de frutas, com pedacinhos para todos os gostos. A web semântica só é possível com a estruturação da informação – aplicando peso semântico através de metadados.

 

Assim, vamos antes aprender a usar a web 2.0 para depois pensar na web 3.0. E provoco: o termo web 3.0 tem sido utilizado de uma forma marqueteira para representar a web semântica , este sim um termo consolidado para representar o futuro da estruturação da informação na rede.

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SOBRE O AUTOR: Charlley Luz é publicitário e arquivista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especialista em projetos de Ciência da Informação e GED, atuou como atendimento, mídia e planejamento em agências de propaganda por mais de dez anos atendendo campanhas publicitárias para empresas e organizações do Rio Grande do Sul. Na área de internet iniciou seu trabalho na wwwriters com a elaboração de projetos, na elaboração e coleta de conteúdo, além de desenvolvimento de trabalhos. Criou projetos web, estruturando arquitetura de informação e conteúdo. Consultor de Ciência da Informação e Comunicação da Plena Consultores, trabalhou em projetos da CCR, Contax e Sebrae Nacional. Atualmente desenvolve também pesquisas acadêmicas na área de Ciência da Informação como web semântica, metadados, workflow e arquitetura de informação.

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