O Arquivista 2.0 é o escriba digital?

24/11/2010 at 19:48 Deixe um comentário

Desde que os humanos deixaram de ser nômades e começaram a dominar as técnicas de caça e plantio, busca-se registrar conhecimentos e repassar a outras gerações através de imagens – além da tradição oral – os conhecimentos absorvidos em relação à agricultura e sobrevivência. Este movimento está registrado nas paredes das cavernas, através da escrita rupestre. Apesar de não haver concordância geral quanto ao objetivo desses registros, fica claro que a transmissão de informação era importante já naquela época.

Não se tem clareza quanto à figura do escriba, porém acredita-se que não era venerada, mas podemos notar uma precisão quanto à técnica e manejo da tecnologia existente à época: tintas primitivas e pedras das cavernas. É o primeiro esforço da humanidade em registrar seu dia-a-dia.

A escrita começou a aprimorar-se com os sumérios, antigos habitantes do golfo pérsico, e que necessitavam de um sistema para registrar suas relações comerciais, seja com outros povos ou entre sí. Dai surgem a escrita cuneiforme, cuja tecnologia era a tablita de argila e a cunha, feita de taquara ou de metal para casos de escrita em pedras. Nesse período surgem os primeiros escribas. Além de realizar os registros, também cuidavam do acervo de seu local de trabalho. Segundo descobertas recentes (através das tablitas de Nuzi), existia um sistema de registros correntes e outro permanente. Uma dessas tablitas referenciava o espaço onde estava arquivado determinado documento.

Quase em paralelo aos sumérios, os egípcios também desenvolviam seu sistema próprio de escrita, dividido em dois: uma escrita focada no sagrado (os hieróglifos) específica para templos e faraós e outra mais popular, a demótica, que era utilizada em documentações correntes e relativa a direitos das pessoas comuns.

Os artefatos do escriba egípcio

Da mesma forma que os sumérios, os escribas egípcios eram respeitados por seu ofício e muitos eram próximos ao poder. Há casos de faraós que eram analfabetos e não dispensava o serviço de um escriba, para deixar seu nome registrado na história. Os escribas egípcios já dominavam outra tecnologia: o papiro e as tintas. No museu do Louvre existe uma famosa estátua chamada escriba sentado, que mostra a admiração por quem desempenhava esta função.

O escriba Egípcio, estátua do museu do Louvre

Mesmo na idade média, no obscurantismo, podemos observar que o conhecimento era restrito aos ambientes monásticos, porém as letras também eram restritas. Muitos aprendiam a decorar orações, mas poucos tinham a missão de escrever. Este escriba medieval trabalhava com outra  tecnologia, era o pergaminho, com tintas mais elaboradas e muitas vezes se usava a pena. A abertura do conhecimento através do iluminismo, que criou universidades e trouxe à tona o conhecimento humano, também gerou uma verdadeira revolução na escrita, a invenção dos tipos móveis (cada letra era uma placa de metal que juntas formavam uma página) possibilitou a cópia em larga escala de livros e jornais. Era a primeira explosão informacional, freada somente pela parcela de analfabetismo que era bastante alta.

Agora passamos para a segunda explosão informacional, possibilitada pelo mundo digital onde cada letra é uma sequencia de oito bits e a combinação dessas sequencias formam palavras e frases, imagens e interação nas páginas dos ambientes digitais.  É a tecnologia, assim como o barro e o pergaminho, que temos à nossa disposição. Falamos do mundo 2.0, com novos paradigmas de estruturação de informações, novos usuários que consomem e geram informações e novas relações entre pessoas.

Nesse mundo digital também surge a nova missão do escriba: agora ele é o escriba digital, responsável por garantir a preservação das informações digitais primitivas. Pois as informações geradas hoje, apenas 20 anos após a popularização das tecnologias de informação e comunicação, são as informações primitivas. Para daqui a cem anos, seremos os primitivos digitais.

Essa nova missão do escriba digital, ou do Arquivista 2.0, é garantir que haja o tratamento e a preservação da informação digital primitiva. Para isso, não precisamos começar a falar em ASCII (bits). Mas temos de saber como se dá a relação das pessoas com as informações digitais.

Para isso, a Arquivologia 2.0 precisa conhecer a arquitetura de informação, a arquitetura de interface, saber a utilidade dos portais corporativos, a taxonomia e a folcsonomia. Além do mais, como estes ambientes digitais auxiliam os processos de negócio das empresas, como se dá a relação dos ambientes digitais com as informações orgânicas? São questões que passam ao foco do Arquivista 2.0, responsável pelas informações digitais humanas primitivas.

A arquivologia 2.0 traz em sua matriz a preocupação com a concepção dos ambientes digitais e com as técnicas arquivísticas. Vamos preparar o futuro da informação primitiva, para garantir nossa história para as novas gerações.

Sobre o livro:
Arquivologia 2.0: a informação humana digital é o resultado da observação e aplicação dos princípios arquivísticos no universo da informação digital.

Através da arquitetura de informação, planejamento de portais corporativos e ambientes digitais, Charlley Luz, que é consultor e professor, traça os caminhos possíveis para uma abordagem 2.0 no universo das informações arquivísticas, aquelas que são resultado da interação entre pessoas e sistemas nos ambientes corporativos.

A gestão do conhecimento e a tecnologia de informação também fazem parte da abordagem, seja através do desenho de interfaces ou da estruturação dos metadados. É uma visão importante acerca do impacto das novas tecnologias e comportamentos no ambiente corporativo, realizados através de ambientes digitais. Conheça o livro aqui
 
Charlley Luz, novembro de 2010.

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Lançamentos regionais Arquivologia 2.0: a Informação Humana Digital Vídeo inspirado no livro Arquivologia 2.0

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