Estivemos este tempo todo trabalhando com Informação que não era Arquivística?

21/01/2014 at 11:22 2 comentários

Quando lancei o Manifesto Arquivologia 2.0, destacava que precisávamos criar uma nova abordagem na arquivologia, que incorpore os conceitos transdisciplinares tratados em gestão do conhecimento, arquitetura de informação, taxonomia, entre outros, por exemplo. Era um chamado para que aprofundássemos na academia o debate sobre as novas formas de gerenciar informações em ambientes corporativos, através de portais corporativos e intranets.
Acredito cada vez mais que o nosso objeto passa do documento físico (fim da era da encapsulação) para a gestão de informações orgânicas nos ambientes digitais, que dão suporte para a administração e futuramente para a pesquisa. Nesse sentido, os portais e intranets passam a ser uma nova arena de trabalho de arquivistas, pois é a eles que afluem as informações de tomadas de decisão e que registram as relações entre instituições e pessoas. Mas vejo que, o que estão ali, são informações orgânicas, resultado dessas relações comuns às instituições. Vejo que tudo ali é informação. Mudou o meio (do papel para o digital), mas a relação e que gerou a informação é a mesma.

Do ponto de vista de evolução do objeto, podemos ver que a arquivologia evoluiu da unidade documental (documento) para os arquivos (massa documental custodiada), passando a seguir para a informação orgânica e agora para a chamada informação arquivística. Mas o que é a informação arquivística? O que caracteriza a informação arquivística? É a informação encontrada em arquivos? Mas o que a diferencia da informação orgânica?

A informação arquivística é a informação digital? Poderia dizer que Informação Arquivística no ambiente digital é o conjunto de dados e metadados ligados por sua gênese? Ela é uma informação gerada em ambientes digitas? Resultado de SIGAD? Atuais processos corporativos continuam fazendo as mesmas coisas de 20 anos atrás, hoje os gerentes autorizam orçamentos através de uma interface digital, as áreas recebem demandas por e-mails e os diretores acompanham tudo por dashboards de sistemas de BI (business inteligence). Porque hoje o objeto é a informação Arquivística? O que a difere da informação biblioteconômica? (se de fato os bibliotecários referem-se ao seu trabalho assim).

Segundo o que pude levantar, o termo informação arquivística foi utilizado no Brasil por Lopes em 2000, ela deriva da tradução de Archival Information utilizada lá fora desde meados dos anos 80 do século passado, mas que designa para eles a relação dos princípios arquivísticos e as informações. Como a sua relação umbilical com o produtor; a sua originalidade, logo, a sua unicidade; a sua capacidade de ser avaliada em termos de idade e de utilização.

Também vi que dentre as particularidades da informação arquivística, ainda são assinaladas a natureza limitada dos seus suportes, a acumulação das informações – produzidas ou recebidas – por um indivíduo ou uma instituição, desde que sejam informações capazes de ter significação. E ainda aquelas que se referem às atividades geradoras da informação e o fato de ser a informação arquivística a primeira forma tomada por uma informação registrada, quando da sua criação. (Revista Archives, 1988 apud Lopes, 2000, p.103).

Logo, é como um mantra em japonês, onde duas palavras podem resumir um grande conceito. Acredito que a informação arquivística não é a informação do documento, é por si só a soma dos princípios arquivísticos representados nos valores da informação tanto para a gestão como para a história ou memória. Será mesmo?

Talvez, esperamos por demais o que vem de fora, não tropicalizamos e criamos muito conceitos. Acredito que o conceito de informação arquivística precisa ser claramente definido pela nossa comunidade brasileira para justificar o uso que está tendo. Este termo ainda não existe no Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística.

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2 Comentários Add your own

  • 1. André M.  |  03/04/2014 às 07:17

    No meu ponto de vista o excesso de compartimentação poderá ser prejudicial. Julgo que o ambiente digital, as suas potencialidades e as necessidades informacionais dos utilizadores irão conduzir a uma aproximação ‘de facto’ entre as áreas da biblioteca, do arquivo e dos centros de documentação, isto é, os tratamentos informacionais podem diferir, mas as respostas às solicitações terão que ser integradas. Quando um utente acede ao meu serviço e me pede uma informação, ele não está interessado se a origem da informação é o depósito de arquivo, a biblioteca ou o repositório de imprensa…
    Quanto à informação orgânica vs informação arquivística, resumidamente, julgo que estamos perante termos equivalentes… fruto de modas (das muitas que existem na nossa área, de um e de outro lado do atlântico). Na prática, a organicidade é uma característica da informação arquivística, i.e., o arquivo de uma organização reproduz as relações funcionais e/ou orgânicas entre os elementos que constituem e mesma organização.

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    • 2. charlley  |  03/04/2014 às 12:30

      Muito obrigado por seu ponto de vista André, aliás, coaduno com grande parte de seu posicionamento, principalmente em relação ao processo de apropriação da informação realizada pelo usuário. De fato, pouco importa a fonte, ele precisa da informação.

      Resposta

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